Uma semana depois, o fogo de Monchique é dado como dominado

Incêndio no Algarve fez 39 feridos ligeiros, dos quais 21 são bombeiros, registando-se ainda um ferido grave. Esta sexta-feira, foi dado como dominado

O incêndio de Monchique foi finalmente dado como dominado, esta sexta-feira, às 8:30. Uma semana depois de as chamas terem deflagrado, a Autoridade Nacional de Proteção Civil anunciou que estava controlado, apesar de ainda estar a ser combatido por 1.371 operacionais, apoiados por 442 viaturas e dois meios aéreos, e de ainda ser cedo para baixar os braços.

Em declarações numa conferência de imprensa em Monchique, Patrícia Gaspar disse que o incêndio tem ainda uma vasta área afetada e que é preciso "manter a energia e a dedicação" para prosseguir com a consolidação do trabalho feito e responder com prontidão a eventuais reativações. A responsável operacional salientou que o dia será adverso em termos de condições climatéricas, com um previsível aumento da temperatura.

A quinta-feira já tinha sido mais calma e ao final do dia o fogo encontrava-se "globalmente estabilizado", mas ainda não dominado e ainda ativo.

Para a noite e madrugada de sexta-feira, a expectativa era a de que a temperatura continuasse a baixar, acompanhada por um aumento da humidade relativa e de um desagravamento da velocidade do vento. Condições que vieram a revelar-se favoráveis ao trabalho dos bombeiros.

Em termos de vítimas do fogo, a Proteção Civil atualizou para 41 o número de feridos ligeiros resultantes do incêndio de Monchique, dos quais 21 são bombeiros, registando-se ainda um ferido grave.

Segundo a última atualização do Sistema Europeu de Informação de Incêndios Florestais (EFFIS), este incêndio já destruiu 26.957 hectares, mais de metade dos 41 mil que o fogo destruiu na mesma região em 2003.

O fogo de Monchique já destruiu quatro vezes mais do que a área ardida este ano até 15 de julho (5.327 hectares).

O maior incêndio em termos de área ardida que este ano se tinha verificado até à semana passada em território nacional foi o da Guarda, em fevereiro, que queimou 86 hectares.

Regresso dos deslocados

No auge do incêndio chegou a haver 299 deslocados. No entanto, esta sexta-feira já só restam 49, as quais deverão regressar a casa nas próximas horas.

Durante a manhã de quinta-feira, as mais de 100 pessoas retiradas durante a noite de quarta-feira de mais de uma dezena de localidades em Silves e deslocadas para um pavilhão escolar do concelho, onde pernoitaram, puderam regressar a casa, disse à Lusa a presidente da Câmara, Rosa Palma, criticando a atuação das autoridades da Proteção Civil por ter havido falta de comunicação e coordenação no combate ao incêndio.

O número de casas destruídas total ou parcialmente em Monchique pode chegar a "cerca de 50", disse à Lusa o presidente da Câmara, Rui André, referindo que o levantamento ainda está a ser feito para que se possa contabilizar os prejuízos.

Já se pensa na recuperação da região

A Direção Regional de Agricultura e Pescas (DRAP) do Algarve anunciou na quinta-feira que já tem equipas preparadas para fazer o levantamento de prejuízos causados nas produções florestais e agrícolas, enquanto o Ministério da Agricultura assegurou que vai disponibilizar alimentação para os animais afetados pelo fogo, aguardando pedidos de apoios dos produtores afetados.

Para a gestão de donativos, que desde o início do incêndio em Monchique chegam de forma massiva aos bombeiros e locais onde pernoitam as pessoas afetadas, nomeadamente o pavilhão Portimão Arena, a Câmara de Portimão está a utilizar o número municipal de Proteção Civil 808 282 112.

Dezenas de voluntários têm percorrido diariamente vários quilómetros pela serra, para assistirem os animais feridos pelo fogo, prestando-lhes a assistência médica necessária à sua recuperação, com o apoio de um hospital de campanha montado numa escola secundária local.

Durante a tarde, Rui André ainda elencava duas zonas que causavam "alguma preocupação". A zona das Caldas/Nave, no concelho de Monchique, e a zona da barragem, no concelho de Silves.

Momentos de "grande aflição" em Enxerim

Na tarde de quarta-feira, o sexto dia do incêndio, as chamas chegaram às portas de Silves, obrigando a GNR a proceder à retirada de populares da localidade de Enxerim. Foram momentos de "grande aflição".

A Proteção Civil apelou às pessoas que se encontravam entre Silves e São Bartolomeu de Messines e a sul de São Marcos da Serra para se manterem em zonas seguras, mantendo a calma e fechando "janelas e portas".

"O incêndio está com uma força muito grande e as coisas infelizmente ainda não estão controladas", explicou à agência Lusa a presidente da Câmara de Silves, Rosa Palma.

Os avisos de Costa

O primeiro-ministro, António Costa, avisou na quarta-feira, na primeira declaração após uma publicação no Twitter acerca do incêndio de Monchique, que este vai continuar a lavrar nos próximos dias, considerando que este fogo foi "a exceção que confirmou a regra" do sucesso da atual operação de combate.

"Não devemos ter a ilusão de que este incêndio [de Monchique] vai ser extinto nas próximas horas. O incêndio irá, aliás, agravar", avisou, antecipando que o fogo "lavrará nos próximos dias".

Este incêndio, acrescentou, "foi a exceção que confirmou a regra do sucesso da operação ao longo destes dias".

A exceção do fogo de Monchique, que não foi apagado como os outros 25 grandes incêndios desta vaga de calor, aconteceu "por circunstâncias próprias", que têm a ver com o terreno, o clima, o tipo de floresta e "outros fatores que no final poderão ser apurados", referiu o primeiro-ministro.

António Costa mostrou-se, contudo, otimista, garantindo que "os meios estão totalmente empenhados" e que se pode confiar na sua "capacidade de desempenhar essa missão".

O primeiro-ministro rejeitou que a passagem de comando para um nível nacional no incêndio de Monchique, desde terça-feira, signifique "embaraço, desconfiança ou sanção", explicando que se trata da "execução do que está planeado".

Monchique, frisou, "tem muitas espécies de combustão rápida", estando sinalizado como um concelho de principal risco.

"Não foi feito num ano aquilo que não tinha sido feito ao longo de dez anos", admitiu, referindo-se à rede primária de prevenção.

Monchique sem água durante dois dias

O centro urbano da vila de Monchique ficou sem água na noite de segunda-feira devido ao incêndio, mas o presidente da Câmara disse que a situação ficou totalmente restabelecida esta quarta-feira, sexto dia de combate às chamas.

"Já resolvemos a situação, toda a população está a ser abastecida, não há qualquer problema de abastecimento", declarou o autarca, Rui André, lembrando que ocorreu uma "situação de exceção" - o abastecimento de viaturas dos bombeiros na vila, tendo em conta a aproximação das chamas.

Além disso, os helicópteros estiveram a abastecer-se com água das piscinas municipais. Existe um sistema de reposição automático, mas os níveis dos depósitos baixaram significativamente.

Linhas de distribuição de energia elétrica danificadas

Ao longo destes dias, um total de 17 localidades chegaram a estar sem energia elétrica, devido ao facto de 40 quilómetros de linha da EDP terem ficado danificados.

O abastecimento de energia através da rede de média tensão ficou totalmente restabelecido em Monchique esta quarta-feira, segundo a EDP Distribuição, mas a rede de baixa tensão (que leva a energia até habitações e pequenos comércios/indústrias) "está bastante danificada" em troços dispersos da serra e continua em curso a avaliação de danos, "embora condicionada pela dificuldade de acessos".

NOS e Altice com serviços móveis restabelecidos

As comunicações móveis da NOS foram restabelecidas na quarta-feira e o serviço móvel da Altice foi reposto na vila de Monchique.

Desde terça-feira que a rede móvel da NOS na serra de Monchique estava condicionada devido a "um 'site' móvel [antena] e alguns serviços fixos em baixo". De acordo com fonte da NOS, ao início da tarde de quarta-feira os serviços móveis estavam "repostos na região de Monchique".

Segundo fonte da Altice Portugal, também as comunicações móveis da operadora foram "repostas na vila de Monchique", tendo-se restabelecido também a "maioria das comunicações fixas".

O incêndio visto do espaço

É uma imagem reveladora. O astronauta alemão Alexander Gerst partilhou nas redes sociais imagens do incêndio, visto a partir da Agência Espacial Europeia (ESA). "Uma mistura de pó, areia e fumo", descreve.

MP e PJ investigam

O Ministério Público do DIAP [Departamento de Investigação e Ação Penal] de Faro vai investigar os incêndios de Monchique, para determinar as suas causas e o seu eventual enquadramento legal, esclareceu a Procuradoria-Geral da República, numa resposta escrita enviada à Agência Lusa na terça-feira.

Fonte oficial da PJ confirmou que a polícia "está a investigar" o incêndio, no âmbito desta investigação, titulada pelo DIAP de Faro.

O incêndio na serra de Monchique, distrito de Faro, deflagrou cerca das 13h30 de 3 de agosto, na localidade de Perna da Negra. Chegou posteriormente aos concelhos vizinhos de Silves, de Portimão (no mesmo distrito) e de Odemira (distrito de Beja).

Atualizada no dia 10 de agosto, às 11:00