Lisbon Mobi Summit: o segundo dia de um encontro enciclopédico

O segundo dia da iniciativa está a decorrer. CEO do Global Media Group destaca as atividades disponíveis para o público em geral durante o fim de semana. O ministro do Ambiente disse que acredita que Portugal vai ser um dos países em que a "revolução na mobilidade" se fará mais depressa, e Patrick Oliva defendeu que os países devem manter uma visão aberta quanto a diferentes combustíveis que sejam não poluentes.

O primeiro dia do Lisbon Mobi Summit, na quinta-feira, foi enciclopédico e o segundo, esta sexta-feira, vai ser igualmente enciclopédico. Esta foi a constatação de Victor Ribeiro, CEO do Global Media Group e, feita no discurso de boas-vindas de mais um dia de trabalhos, no SUD Lisboa. Vítor Ribeiro fez uma antevisão dos que vai acontecer até domingo à beira-rio.

"Será uma grande operação de contacto, com vista para o futuro e aberto ao público", disse o CEO do Global Media Group, enumerando os veículos que vão estar à disposição de todos que queiram comparecer em Belém. São eles, entre outros, viaturas autónomas, carros elétricos, scooters, trotinetes e jogos de mobilidade virtual.

O especial destaque foi para os debates sobre a descarbonização, smartcities, segurança rodoviária, entre outros.

Indústria portuguesa está na vanguarda da nova mobilidade

Ana Lehmann, reiterou várias vezes no encerramento dos debates de sexta-feira do Lisbon Mobi Summit que Portugal está na linha da frente quando se fala em mobilidade e nas soluções para os desafios que são apresentados para a melhorar, rumo a um futuro mais sustentável das cidades.

A Secretária de Estado da Indústria deu vários exemplos de como em várias áreas as empresas portuguesas são exemplo de inovação. Citou o caso da Efacec e da EDP, por exemplo, mas a recordou também como várias empresas estrangeiras reconhecem a oportunidade que há em investir no país, exemplificando com o caso da Volkswagen, que apostou num centro de desenvolvimento de software e com a Mitsubishi , que está a criar a primeira e-truck na fábrica do Tramagal.

No CEiiA, centro de investigação de desenvolvimento de startups e projetos, surgiu a rede de carregamentos de veículos elétricos e a possibilidade de se saber a quantidade de CO2 que foi poupado. Há ainda "o inovador sistema de partilha de scooters elétricas" e "o carro-drone que permite uma mobilidade horizontal e vertical.

"Bicicleta, scooters, carros, drones, aeronaves, temos de tudo. Temos de reconhecer o valor do que fazemos. Portugal tem de aproveitar a vaga de oportunidades", salientou.

Ana Lehmann abordou ainda a importância de apostar na inteligência artificial, admitindo que a União Europeia está atrasada neste processo, ao contrário dos EUA ou China.

Para fechar, recordou a iniciativa do governo "Indústria 4.0", que tem o objetivo de aumentar a digitalização na indústria e promover a adoção de tecnologias inovadoras. Num projeto de quatro anos, em ano e meio, "59 das 64 medidas já foram executadas" e até ao final do ano será possível concluir as restantes.

Uma multidão num pequeno espaço "sufoca" Macau

O excesso de volume de pessoas e tráfego rodoviário faz com que Macau sofra de uma saturação do espaço público, um problema que urge resolver. Quem o disse foi JoséLuís Sales Marques, Presidente do Instituto de Estudos Europeus de Macau e ex-presidente do Leal Senado, que falava na sessão plenária de sexta.-eira integrada no Lisbon Mobi Summit (LMS), que decorre no SUD Lisboa, em Belém.

Para dar uma ideia da dimensão do problema de mobilidade existente nesta região, este responsável avança com alguns números: Macau tem 650 mil habitantes concentrados em 32 quilómetros quadrados. Além do mais tem 30 milhões de visitantes por ano. Estes dados estatísticos, como é evidente e segundo este orador, fazem com que "transportes e vias públicas tenham uma densidade populacional muito grande".

Mais: a acrescentar a isto, há um enorme volume de carros topo de ganha que são inimigos do ambiente e das questões ligadas à mobilidade.

Segundo José Luís Sales Marques este problema começou a ser resolvido aquando da elaboração de um plano de urbanístico que data de 2010. Mas a solução está longe de chegar.

"O maior erro foi a invenção do carro particular"

Foram muitos elogios à cidade de Lisboa, mas Pascal Smet esteve na Lisbon Mobi Summit para falar da realidade de Bruxelas. Dos 1,6 milhões de pessoas, somando locais e quem entra todos os dias na capital belga, metade anda de carro. Uma realidade que acompanha a mentalidade daquele país, mas que para o ministro para a Mobilidade do município de Bruxelas é preciso mudar.

"É preciso alterar o paradigma" afirmou, considerando que chegou o momento de "mudar a cidade para as pessoas", tendo de deixar de ser tão construída a pensar na utilização do carro individual. Para que melhor se compreenda porque tantas pessoas preferem o automóvel, Pascal Smet explicou como muitas empresas incluem o carro e até o combustível nos contratos e não apenas para as que ocupam os cargos mais importantes. O facto de muitas pessoas viveram em zonas fora da cidade, mais rurais, também convida a escolher este meio de transporte.

"Não podemos confundir o objetivo com os meios", referiu. "O objetivo é a qualidade de vida", acrescentou. Smet considera que as pessoas já começam a perceber o problema de Bruxelas e realçou como as gerações mais novas - não apenas na Bélgica - já não querem automóveis particulares, não o vendo como uma forma de arranjar uma namorada ou como sinal de sucesso. "A realidade é que o meu carro, significa o meu engarrafamento", frisou.

E estamos a assistir a um regresso ao passado. "As cidades europeias estão a mudar. Há o regresso das bicicletas, as pessoas estão a andar, tal como no início do século XX", referiu, considerando que se irá ver que "o maior erro foi a invenção do carro particular". Pascal Smet, perante o hábito enraizado de utilização do automóvel, afirmou: "Devíamos fazer as pessoas felizes contra a sua vontade." Ou seja, criar espaços e condições que até podem suscitar inicialmente críticas nas populações, mas que depois irão ganhar adesão e até brincou: "Dirão que a ideia foi delas!"

João Pedro Matos Fernandes, ministro do Ambiente, disse à margem do Lisbon Mobi Summit, onde abriu as intervenções do segundo dia de trabalhos, que acredita que Portugal vai ser um dos países em que a "revolução na mobilidade" se fará mais depressa. O Fundo Ambiental deverá ter, em 2018, uma receita de 300 milhões de euros, 30% dos quais serão aplicados à melhoria do setor dos transportes.

Uma cidade conectada pressupõe que os utilizadores de serviços, como os de partilha de carros e bicicletas, também partilhem dados confidenciais através de aplicações. Markus Bischof, especialista em segurança da Cisco e orador no Lisbon Mobi Summit num workshop sobre "Trusted Mobility", acredita que a solução para que os sistemas de partilha não sejam vítimas de uma quebra de segurança está num trabalho constante e em conjunto entre todos os protagonistas desses serviços.

Automóveis deverão usar eletricidade e hidrogénio

Com Portugal a receber o elogio por ser tão ativo na tentativa de descarbonização, ainda há muito a fazer para que até 2050 seja possível concluir um processo tão complexo. Para Patrick Oliva, fundador do Paris Process on Mobility and Climate Change, é necessário uma visão mais neutral nesta transformação de abandono dos combustíveis mais poluentes.

Isto é, apesar da eletrificação ser uma grande aposta, Patrick Oliva defende que os países devem manter uma visão aberta quanto a diferentes combustíveis que sejam não poluentes. "Temos de fazer mais e agora", salientou no debate sobre Descarbonização dos Transportes, que decorreu esta sexta-feira.

Utilizar o hidrogénio como combustível automóvel é uma possibilidade apontada por Oliva. A aposta foi feita no passado, mas praticamente abandonada entretanto, com exceção em alguns países asiáticos e com a Alemanha também ainda a não desistir por completo. O responsável considera que talvez combinar baterias de diferentes fontes poderá ser uma solução para mais rapidamente se chegar a soluções viáveis e económicas.

"Os [atuais] veículos elétricos não nos dão tudo o que precisamos", afirmou. É essencial que os transportes evoluam, pois é por eles que a descarbonização poderá ser maior e feita no mais curto prazo. É necessário energia eficiente, mas é preciso também pensar nos custos, de forma a que todos saiam beneficiados. "É preciso combinar os elementos para crescer", disse, apelando: "Não podemos ter medo dos diferentes investimentos."

Patrick Oliva avisou que neste momento se descarrilou rumo ao objetivo da descarbonização em 2050. "Mas acredito que podemos lá chegar."

Empresas de transportes vão demorar a eliminar o diesel e o gás

A Transdev, maior transportadora global da Europa, está centrada no esforço de apoiar a descarbonização, disse o seu diretor de estratégia e inovação, Xavier Aymonod. Mas o responsável da empresa francesa admitiu que este objetivo tem algumas limitações e um custo elevado. Em causa está uma frota de mais de mil autocarros, dos quais 70% ainda funcionam a diesel, 11% a gás e apenas 5% a eletricidade.

Atendendo a que a rentabilidade da operação requer que os camiões têm de cumprir o seu período de vida útil, a sua substituição antes de decorrido esse período comporta custos muito elevados, observou.

Falando no painel da manhã sobre descarbonização dos transportes, Xavier Aymonod referiu que a empresa tem uma visão ampla de como deve evoluir.

Assumindo que o seu negócio de todos os dias é apoiar a descarbonização, aquele responsável considera que esse esforço deve ser feito em três eixos. Em primeiro lugar, atraindo mais pessoas para os transportes públicos, aumentando a oferta e melhorando a sua experiência. Em segundo, apostar no transporte "on demand", que flexibiliza o serviço, por exemplo, com serviços de navetes que podem levar as pessoas exatamente onde precisam, através de uma aplicação móvel. E, por último, apostar num mix de modalidades de transporte para ajudar a reduzir a poluição.

Europcar revela como juntou ao aluguer o carsharing

A Europcar pode ter-se afirmado no serviço de aluguer de carros mas, em 2014, a empresa enveredou para a missão de estudar o fenómeno da mobilidade e identificar possíveis startups onde investir. Hoje a Europcar já tem sistema de carsharing e também de scooters.

Com o avanço da tecnologia, Paulo Moura, Diretor Geral, Europcar Portugal, realçou no debate sobre a Mobilidade Partilhada, na Lisbon Mobi Summit, que "há imensa margem de para avançar" dadas as plataformas que se podem desenvolver. Uma das startups que a Europcar investiu foi na Bélgica, que se dedica à partilha de scooters. "Queremos desenvolver [o serviço] noutras cidades europeias, principalmente no sul da Europa", explicou, com Portugal a ser, naturalmente, um dos locais a apostar. Já o sistema de carsharing da empresa deverá chegar a Lisboa em Janeiro.

Outro dos planos é que exista uma plataforma que integre e unifique todo o tipo de serviços, desde o aluguer de carros, aos de veículos com motorista e aluguer de scooters.

Mobilidade partilhada combate para se tornar num hábito

"Primeiro temos de criar soluções, depois virá o hábito" de utilizar a mobilidade partilhada, ou seja o modo de "boleias" que se está a expandir nos dias que correm. Quem defende esta ideia é João Oliveira, diretor de operações da Drive Now, da Brisa.

Este responsável falava no painel Mobilidade Partilhada, inserido no Lisbon Mobi Summit, que está a decorrer no SUD Lisboa. E aqui aproveitou para frisar que "a Brisa foi e é muito importante para alterar os hábitos de mobilidade das pessoas.".

Segundo João Oliveira normalmente as pessoas resistem a aderir a esta nova forma de "boleia", mas depois de utilizar a app (seja ela qualquer for das que estão disponíveis no mercado) ficam fãs deste método.

A posse de um automóvel já não é essencial

A emov é uma empresa de carsharing (mobilidade partilhada) que só utiliza veículos 100% elétricos e que neste momento tem uma oferta de 600 carros em Madrid e 150 em Lisboa, explicou no Lisbon Mobi Summit Fernando Izquierdo, o diretor-geral da emov Espanha e Portugal.

A emov é uma empresa que encara a mobilidade como um serviço e que aproveita as novas tendências de comportamento, onde sobressai um menor sentimento de posse sobre i carro, explicou o diretor-geral.

"Em Madrid, o que está a acontecer é incrível", disse para exemplificar o crescimento da concorrência neste tipo de serviço, desde que a empresa começou a operar em 2016. "

Estávamos praticamente sozinhos" e agora há qualquer coisa como uma dúzia de empresas na área. "Isto é uma autêntica revolução", conclui Fernando Izquierdo, esperando que em Lisboa possa a acontecer algo similar.

Boas soluções de mobilidade não são iguais em todo o lado

Estudar as particularidades de cada cidade para poder preparar as mudanças necessárias a uma melhor mobilidade foi o tema que Simon Dixon, Global Transportation Sector leader, Deloitte levou ao Lisbon Mobi Summit.

Para Dixon é preciso perceber o que a inovação pode fazer por cada uma das cidades, com os governos a terem um papel fundamental, pois é imprescindível ter as bases certas nas infraestruturas e na segurança, por exemplo. Acrescentou que os governos têm de encontrar o balanço certo entre a procura e o que é disponibilizado à população.

"A integração dos sistemas de mobilidade é a chave", salientou. Ser possível organizar uma viagem por vários meios de transporte tendo apenas de comprar um bilhete, usando apenas um telemóvel, é algo a concretizar. "Tem muitos benefícios, mas dá trabalho porque vai quebrar com modelos antigos."

Outros dos pontos que a Deloitte tem estudado prende-se com os congestionamentos. "O que nos surpreende é que é um problema em todo o lado", realçou. E onde há congestionamentos, a qualidade do ar piora pois reflete essa situação.

Dixon considera que a gestão dos carros disponíveis desempenha um papel na integração da mobilidade nas cidades, dando o exemplo dos carsharings. No entanto, os responsáveis pelas cidades terão de ter em atenção a articulação da gestão desses veículos com os autocarros, que acabam por não conseguir andar com o excesso de carros que surgem nas cidades.

Lidar com a cultura de cada cidade é incontornável e é por isso que Dixon recusa dizer qual é a melhor. Refere como em Amesterdão é possível andar tanto de bicicleta, devido ao terreno plano e ao clima ameno, algo impensável numa cidade onde haja invernos rigorosos. Porém diz que apostar nos autocarros seria importante, por ser mais fácil de criar estradas para eles, do que abrir caminho para um metro. "Apelo a que tornem o autocarro mais verde", disse.

Terminou a referir como o público e o privado devem trabalhar juntos, com os governos a serem os que têm de fazer a aposta inicial, para talvez assim motivar o sector privado. "O governo deve ser um catalisador."