Migrantes. O que pensamos quando vemos esta imagem?

O sociólogo Mehdi Alioua vê raízes colonialistas na forma como hoje olhamos para a migração. Grande parte dos europeus vê "um barco que chega com pessoas que têm pele de cor negra" e pensa que a Europa está a ser invadida.

Há anos que Mehdi Alioua estuda os movimentos migratórios a partir do norte de África. O sociólogo é professor na Universidade Internacional de Rabat, em Marrocos, e esteve na fundação da primeira associação anti-racista do país.

À conversa com o V, o especialista sublinha as raízes colonialistas e racistas de um sentimento anti-imigração que tem crescido nos países ocidentais. Os mesmos países que, sublinha, enriqueceram depois de terem "pilhado" o continente africano.

O especialista lembra que os números da imigração para a Europa têm vindo a estagnar ou diminuir. E reforça: os países mais afetados pelos movimentos migratórios são os mais pobres e estão no sul do continente europeu.

Estados Unidos, Hungria, Itália. Nos últimos dias temos visto em todos estes países serem dados passos contra a imigração. O que os une?

Os imigrantes são vistos como uma fonte de problemas. É por causa dos estrangeiros que há violência, é por causa do islão que há violações nos países cristãos, é por causa dos imigrantes que há desemprego, etc., etc.. Isto é falso. Todos os estudos científicos nesta área, da América do Norte e da Europa ocidental, mostram que não há ligação entre a imigração e a violência.

Mas há um sentimento, que é partilhado por grande parte da população, de que há uma ligação, que há um problema com a integração. E quando há, por exemplo, um episódio em que um homem que mata a mulher, não se fala muito disso na televisão, mas se esse homem for um imigrante, um estrangeiro, já se fala muito, e começam a perguntar coisas como "será que podemos acolher os estrangeiros no nosso país?", etc..

De onde vem o medo dos imigrantes?

Eu penso que estamos no meio de uma crise existencial. A sociedade mudou, o modelo económico mudou. Passámos de uma sociedade industrial, com os seus movimentos sociais que começaram com os operários, uma forma de luta de classes, um combate que visava reequilibrar o poder, a redistribuição entre capital e trabalho, e isso resultou na democracia que hoje conhecemos, com os seus altos e baixos. Essa sociedade está em vias de desaparecer. Somos cada vez países menos industrializados. A Europa e a América do Norte têm cada vez mais concorrência de países como a China, a Índia ou o Brasil. E a forma de organização social mudou. Isso deixa as pessoas muito angustiadas. Elas não sabem como vai estar a sociedade no fim da vida delas.

E isso reflete-se na questão dos migrantes. As coisas estão a mudar e uma das mudanças mais visíveis é a cor da pele, por exemplo.

Nós vemos um barco que chega com pessoas que têm pele de cor negra, o que já em si é um pensamento racista, mas passa uma imagem de que a Europa está a ser invadida ou que os Estados Unidos estão a ser invadidos pelos imigrantes mexicanos. E o medo que já existe, é utilizado nestas situações. Eu penso que isso é responsabilidade de todos os políticos europeus, que não denunciam o suficiente esse discurso.

A Europa está muito bem, ela nunca esteve tão rica, Os Estados Unidos também nunca foram tão ricos. O que está mal é a redistribuição da riqueza, é a ecologia, é o planeta.

Já referiu que na Europa existe uma espécie de "crise de hospitalidade". São os países que recebem menos refugiados, mas também são os que estão menos recetivos. Esta falta de hospitalidade pode estar ligada aos problemas de racismo de que falou?

Sim, estão ligados. A Europa não analisou suficientemente a questão pós-colonial. Ainda há uma relação de dominação. A colonização usou a ideia de que há raças superiores e raças inferiores. Ou usam conceitos que não falam em raça, como em França, como a civilização, mas que querem dizer a mesma coisa. Civilizações superiores e civilizações inferiores.

Ao contrário do que se pensa, em nenhum dos países europeus este discurso é desconstruído o suficiente nos programas escolares, nos filmes, na televisão. Há um sentimento anti-racista jovial, simpático, que diz que não está certo não amar os outros, mas não é assim que se desconstroem essas ideias.

Desconstruir é dizer que a Europa enriqueceu porque ela pilhou o continente africano, veja-se o que foi feito com as matérias primas, e o esclavagismo. É preciso reavaliar esta relação de forças.